Banda de Dexter Gordon, Arrasou!

Quando três membros da equipe de Sirocco Blue foram convidados a participar no quarto tributo em homenagem a Dexter Gordon—um dos grandes músicos do planeta, a essência de tudo que é ‘cool’, inovador virtuoso de Bebop—agarramos os computadores, uma roupa quase apresentável e a estrada aberta rumo a Nova Iorque.

Presenciamos quatro noites fantásticas de uma das melhores bandas atuais de jazz no país, o Conjunto do Legado de Dexter Gordon: no piano George Cables; no baixo, Dezron Douglas; na bateria, Victor Lewis; nos vibes, Joe Locke e, claro, os dois saxofonistas, Abraham Burton e Craig Handy. A banda, composta de figuras importantíssimas ao desenvolvimento do Jazz e da música mundial em geral que tocaram com Dexter e, no caso de Abraham Burton e Craig Handy, a próxima geração profundamente influenciada pelo grande saxofonista.

Foi no caminho que nós pensamos no melhor jeito de abordar este tributo; um momento que nos pareceu dar abertura a um mundo não só de performance, mas também às historias de personas como a Senhora Maxine Gordon, com a sua maneira única de unir o passado, presente e futuro desta música que nós amamos, o Jazz. Como a língua que se usa para refletir sobre um ato muitas vezes estrutura a nossa experiência, optamos por escrever sobre o tributo em duas línguas e através de dois pontos de vista. Enquanto meu colega que escreve em Espanhol detalha melhor a música do tributo, eu começo com a minha fascinação pelos atos da Sociedade de Dexter Gordon, uma organização sem fins lucrativos que é, em todas as funções uma extensão da voz, da música e da pessoa de Dexter Gordon. A sociedade serve também como um tipo de mensageiro e o tributo, reconhecendo o impacto enorme de Dexter Gordon e a beleza da sua arte, carregando as mensagens deste grande músico (e também ator, não se pode esquecer!).

imageedit_3_7332682624

A noite do tributo que caiu na mesma data de nascimento de Gordon foi espetacular. Foi talvez a noite de mais união entre o grupo e, junto com a imagem belíssima da lua subindo na janela de Dizzy’s Club, a noite na qual a música transcendia mais. Foi nesta noite que Maxine Gordon—esposa, produtora, agente e gerente de tour de Dexter Gordon durante os anos de mais impacto que ele teve—abriu o performance iluminando a sala grande com a sua sabedoria e pela sua simpatia.

O que não se vê no clipe é o público: houve um orgulho ao ouvir que o Perfeito da Cidade de Nova Iorque escrevesse uma carta sobre o tributo do qual todos nós participamos. A carta também representou para o público que este centro mundial de cultura e arte, Nova Iorque, é construída na força criativa dos Gigantes Sofisticados como Dexter Gordon, e que cada cidade do mundo onde ele morou declara o Dexter como parte da sua cultura. Dexter nasceu em Los Angeles e é simultaneamente Nova Iorquino, da Copenhagen, do Paris, do México e a lista continua. O som expansivo e a sua pessoa estende toda noção de barreiras superadas neste mundo transnacional.

IMG_0751

No meio do primeiro set, tudo me pareceu parar quando o bolo de aniversario de Dexter Gordon chegou à mesa e vi Maxine Gordon apreciar o cenário. A música continuou fortíssima e belíssima mas todos nós do público ficamos calados, concentrados na Senhora Gordon, cujo carisma, inteligência rapidíssima e humildade ganha a simpatia de qualquer grupo. Para nós, as velas acesas do bolo representa os caminhos iluminados do aniversariante. Ao apagá-las, mantemos a luz por dentro para iluminar o próximo ano. Apagar com nosso alento, nosso vento, aquilo que forma a nossa comunicação significa que aceitamos o presente da comemoração: é um jeito de aceitar a luz e também dizer, indiretamente, que fará parte da nossa memória viva.

Então quando Maxine–rosto iluminado pelas velas, rodeada por músicos, amigos e colegas que amam Dexter–olhou com orgulho para a banda e soprou, não era um ato simples solitário. Representou, também, um conjunto de forças e o que Maxine Gordon tem mais do que uma década fazendo: a continuação da autobiografia de Dexter Gordon, Society Red, a canalização desta voz autobiográfica e a “conversão” deste texto à biografia de Dexter Gordon. Ela está escrevendo a biografia do seu esposo. A biografia, então, é a continuação da voz, do alento, e do vento do Dexter (a força do seu saxofone), o qual vimos na hora de Maxine reconhecer as velas. A autobiografia que Dexter não conseguiu terminar, a termina Maxine como biografia. Mas—por ter sido produtora, gerente dos tours e a sua esposa—esta biografia torna-se um ato também autobiográfico. São, se entendemos biografia e autobiografia como “tarjama” (a palavra do árabe por tradução significa estas duas maneiras de narrar), traduções de traduções, talvez uma das maneiras de contar a historia do jazz e da sua cultura. E de certa forma, observando quatro noites e oito sets, a banda tocou do mesmo repertório mas nunca da mesma forma: sempre uma adaptação maravilhosa.

Mas embora Maxine apenas mencionasse esse monstro de livro em uma frase passageira, o público sentiu Dexter Calling (Dexter Chamando) e a biografia que incorpora a voz autobiográfico de Dexter se chama assim mesmo: “Dexter Calling: The Life and Music of Dexter Gordon.” Dexter chamando do passado para o presente e futuro através da pesquisa e escrita da sua esposa, uma grande obra mensageira que talvez se publique esse ano.

Voltando à noite… Como meu colega que compartilhou as suas impressões em Espanhol, eu também não finjo ser um jazzista nem uma pessoa suficientemente competente para falar da maravilha da banda mas aviso que a força de Victor Lewis e de Dezron Douglas permitiu um alcançar de som do Abraham Burton que em muito tempo não tenho sentido. The Chase soando ainda mais intenso, Abraham Burton e Craig Handy trocava mensagens num diálogo fantástico de saxofones, uma conversação entre os dois e também entre eles e Dexter.

E o público sentiu também: mãos no peito, batendo palma contra a perna, abaixando e subindo a cabeça, corredor lotado, gente em pé por não ter aonde sentar, gritos dos jovens que entravam para o performance depois. Agora, nada contra o espaço, mas o jazz surgiu nas comunidades e não no que hoje é Columbus Circle, muito menos o Lincoln Center, um prédio de alto luxo. O contraste de historia e presente às vezes interfere em espaços tais, mas com essa banda e com os convidados da Sociedade de Dexter Gordon, o modo de participar no momento foi ativado, os locais do passado voltaram. Até copos começaram quebrar da intensidade.

Não sou fã de enfocar num músico só, pois sem a união da banda seria difícil, talvez impossível, que um membro chegasse sozinho aos momentos transcendentes. Mas, já reconhecendo que Abraham Burton conseguiu canalizar o saxofone de Dexter Gordon, ventos compatíveis entre duas gerações, acho importante destacar que ele está prosseguindo por uma nova trajetória, seguindo o caminho que John Coltrane e Dexter Gordon deixaram aberto.

Deu para sentir, por trás do palco, antes e depois dos sets, que Burton estava numa comunicação constante desde o momento em que entrou no edifício. Deu para sentir o orgulho ao tocar com com os grandes da banda em homenagem à pessoa quase deidade que ele tem seguido a vida inteira.

O tributo foi um grande sucesso. Esgotou todas as noites e houve uma imensa satisfação entre membros do público. Ao sair, ouviam-se comentários como “isto aí foi o Jazz de raiz.” Também procuraram comprar discos (cd e também de vinil) que estão disponíveis ainda no Site Oficial de Dexter Gordon. E, para quem gostou de ter lido sobre o tributo em Português, nós vimos agora fotografias de Dexter e Miles Davis em Portugal no mesmo site.

Depois desta banda de Dexter Gordon, a mais enraizada na tradição de jazz da programação anual de Dizzy’s Club, entrou um grupo de alunos extremamente animados de Julliard, Sammy Miller and The Congregation, como se o tributo abrisse o cenário para um grupo ‘voltar’ aos anos 20 e 30. Dexter Chamando! Esperem, queridos seguidores da Sociedade e desta banda fantástica, muito mais!

Advertisements

One thought on “Banda de Dexter Gordon, Arrasou!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s