Na Fronteira da Ciência e a Reforma Social do Brasil

No meio de tanto tumulto no Brasil, sem importar a sua posição política, há algo concreto e imensamente positivo que é resultado do enorme investimento do governo brasileiro para a ciência, tecnologia e invocação do país, o programa Ciência sem Fronteiras (CsF). Os bolsistas de pós-graduação do programa Ciência sem Fronteiras em EUA, um dos maiores programas de bolsas de estudos da história do planeta, estão realizando pesquisas extremamente inovadoras e relevantes para ciência e de alta utilidade para a resolução de problemas sociais do país. Ocupam e ocuparão, através dos seus projetos, a ‘fronteira’ entre a ciência, a academia e a sociedade brasileira.

Entre os dias 12 e 13 de março de 2016, na Harvard University, os bolsistas de doutorado do programa Ciência sem Fronteiras, nos Estados Unidos, organizaram a primeira conferência dedicada a estudantes brasileiros de pós-graduação. Com o intuito de compartilhar as suas experiências e os seus projetos de pesquisa, em diversas áreas da ciência, matemática, engenharia e tecnologia.

A conferência, chamada BRASCON, abriu um espaço de suma importância para que alguns dos alunos mais talentosos do Brasil—a próxima geração de líderes do país—compartilhassem a sua experiência uns com os outros. Muitos não se conheciam antes da conferência. No entanto apesar do rigor científico das palestras, tinha-se a sensação de estar em uma grande família. com cada bolsista logrando seus objetivos acadêmicos e pessoais, comprometidos a levar o aprendizado de volta ao Brasil. Houve, sem dúvida, um senso de união em prol de um objetivo comum: transformar o país que amam.

A conferência teve vários componentes dinâmicos. Houve em torno de 30 apresentações de pôsteres, 9 bolsistas foram selecionados para apresentações orais e também belas palestras dadas por líderes atuais, em vários campos da ciência do Brasil e dos EUA. Entre estes líderes estavam o Dr. Miguel Nicolelis, professor de Neurobiologia e Engenharia Biomédica da Duke University, vinculado ao Instituto Internacional de Neurociência de Natal e o Dr. Marcelo Gleiser, professor de Física e Astronomia do Dartmouth College. Os alunos também puderam ouvir relatos e experiências internacionais do Dr. Márcio Resende, Jr, Dr. Leonardo Teixeira, Ana Lopes, Dra. Cristina Caldas e Dra. Ana Carolina Nogueira.

Houve momentos de compartilhar ideias inovadoras e também momentos de pensar como coletivo, no grande e misterioso impacto de atravessar fronteiras linguísticas e culturais nos programas de doutorado nos Estados Unidos. As perguntas do público envolviam a intersecção da ciência e da sociedade, como por exemplo, como a ciência pode impactar as comunidades brasileiras e também como navegar as traduções culturais e obstáculos entre culturas. Foram palestras que se converteram em oficinas de apoio: uma receita para dar novas energias aos projetos de pesquisa e permitir que os alunos pensem na direção social que querem ter.

Da minha perspectiva, alguém que trabalhou nos dois programas de intercâmbio envolvendo Estados Unidos e Brasil (100.000 Strong in the Americas no Brasil, e Ciência sem Fronteiras nos EUA), a BRASCON foi sem dúvida, um dos encontros entre bolsistas mais produtivos que já vivi. A conferência foi organizada e implementada, sem patrocínios, pelos próprios bolsistas, justamente no momento em que muitos dos 505 bolsistas atuais de doutorado nos EUA começam a se aproximar à época de conclusão do curso e redação de suas teses de doutorado. Estes projetos de tese em fase final significam que um número significativo de bolsistas está se preparando para retornar ao Brasil e estes claramente mostraram o grande impacto que terão na transformação social e científica do país.

Além de não ser cientista, o português, idioma belíssimo que foi praticamente eleito como língua oficial da conferência, não é a minha primeira língua. São nestes momentos que os usos de língua se tornam evidentes porque, normalmente em congressos científicos, mesmo em inglês, tenho a sensação de que não falo língua alguma, especialmente porque todos do público aplaudem com grande admiração o material apresentado. Com um foco especial nas questões linguísticas, o que para mim é a chave para um programa de bolsa tal como o CsF em que, ao voltar, se espera que o aprendizado se converta em intervenções sociais e melhoramento geral para a sociedade, fiquei absolutamente maravilhado com a capacidade de cada bolsista de ‘traduzir’ o seu projeto da linguagem científica para a língua franca para alcançar um público de diversas áreas de pesquisa.

Muitos dos bolsistas compartilharam sobre o grande compromisso social e espírito de voluntariado que absorveram na cultura norte-americana. Notei bastante a preocupação social, como centro de quase todas as palestras e apresentações. Esta capacidade de conectar campos de pesquisa e comunicar as ideias mais inovadoras da ciência em uma língua comum, (uma língua que até eu possa entender) reitera que este grupo não só vai levar a ciência a níveis nem sequer esperados de volta para o Brasil, como também, conseguir ensinar e melhorar a didática da ciência para motivar as próximas gerações. Os bolsistas de doutorado pleno servirão de intermediadores entre a ciência e o enorme trabalho social que o Brasil está por fazer.

Também através da BRASCON ganhei um respeito profundo pelo humanismo de cada projeto, pela inspiração de contribuir ao Brasil. Eu já tinha ouvido as críticas feitas pela mídia, ao programa, em especial a brasileira, que nunca se sentou em uma mesa com os bolsistas de PhD nos EUA e outros países. Quando eu dizia que trabalhava com o CsF nos EUA, era comum ouvir comentários como ‘o Governo Federal está dando bolsas de estudos somente aos alunos de classe média ou cima. Isto, porque é exigido uma pontuação mínima no TOEFL, exame de proficiência em inglês. Para algumas pessoas, somente os alunos que tiveram educação em escolas particulares e/ou dinheiro para pagar cursos de inglês, conseguem uma pontuação alta no TOEFL para serem aceitos nas universidades dos EUA. Eu entendia a ideia por trás destes comentários, nas diversas formas em que foi articulada, mas não a aceitava. Para alguns, a crítica estendeu-se ao futuro retorno ao Brasil: ‘por ser uma bolsa que beneficiava uma classe social removida da realidade do país, não existiria um retorno da ciência e da experiência no exterior para as massas brasileiras. A crítica, neste contexto mal informado, era de que os alunos não se sentiriam na obrigação de contribuir para a melhora e o desenvolvimento de uma das sociedades onde há mais desigualdade no mundo.

No entanto, na BRASCON eu ouvi e gravei histórias maravilhosas de pessoas que superaram obstáculos sociais e econômicos para entrar no CsF. Talvez estes não sejam a maioria, mas o impacto destes poucos é extraordinário. Além disto, percebi que, até mesmo os alunos que eu conheci, que vieram de classes mais empoderadas do Brasil enxergam um compromisso e preocupação social extremamente profundo com o Brasil. Nas palavras de Guilherme Rosso (co-fundador da Rede CsF que fez uma apresentação espetacular sobre a importância da entre bolsistas), “O sentimento geral é que ainda temos um futuro para o Brasil e que Ciência, Tecnologia e Inovação devem estar na pauta. As ruas podem ser ocupadas pelo povo sim, mas as escolas devem ser ocupadas pela ciência também. Os políticos e os jogadores de futebol podem estar nos noticiários, mas os cientistas devem ter espaço compartilhado na mídia.”

Através do esforço extraordinário dos voluntários da diretoria e coordenação da BRASCON, foi possível criar um ponte que inspirou e continuará inspirando bolsistas e alunos brasileiros no exterior. Carleara Rosa, Gisele Passalacqua, Vanessa Dias e Gláucia Ribeiro, junto com bolsistas, realizando seus estudos em cada canto dos EUA (Raquel Rocha, Cristiano Reis, Sara Dumit, Tássia Pereira, Jéssica Silva, Luiz Felipe Ungericht, Karin Calvinho, Karina Lima, Luana Teles, João Vogel, Andre Guerrero, Ariane Brotto, Gabriela Veroneze), criaram uma plataforma institucional e dinâmica e um grande momentum.

Este ato da BRASCON de construir um palco é um demonstrativo claro da vontade enorme de criar redes e colaborações entre os bolsistas e, acima de tudo, aprender uns com os outros. Para mim, a Brascon partiu da vontade de desenvolver vínculos entre projetos e pesquisas, permitir que os alunos se conheçam pessoalmente, e criar uma ferramenta extremamente necessária para unir estes bolsistas brasileiros, os próximos líderes de ciência, de educação e de compromisso social no país.

Enfoquei-me, neste artigo breve, nos alunos da pós-graduação nos Estados Unidos, mas os mesmos comentários aplicam aos bolsistas da pós-graduação em outros países e também aos da graduação. Sabendo que estou colocando a mão no fogo de determinações já concretizadas pela força de mídia no Brasil, posso apenas compartilhar o que vi com os meus próprios olhos na minha universidade do meu estado natal, a Universidade de Massachusetts-Amherst. Os alunos de graduação do programa CsF, às vezes criticados pela mídia brasileira por uma porcentagem minúscula que partiu-se do rigor acadêmico que o 99% demonstrou no estrangeiro, impressionaram, de maneira profunda, tantos os professores quanto os colegas do maior campus do estado. O “país de futebol,” pelo menos na universidade em Amherst de mais de 30,000 pessoas, virou “país da ciência.” Além disto, a palavra “sem” da CsF significava (para nós aqui em Massachusetts, estado em que Português é o segundo idioma mais falado) que não há fronteira entre a ciência que estes bolsistas estudam, a língua e cultura que absorveram e o impacto que vão ter no âmbito social do Brasil.

Especialmente neste momento de re-imaginar a nação, no meio de uma das crises mais severas na história do país que amam de coração, os alunos da Ciência sem Fronteiras estão redefinido o papel que a ciência–de energia renovável a medicina a novos processos agrícolas–terá na sociedade.

Este artigo foi escrito em Português por Jacob Dyer Spiegel de www.SirccoBlue.com | Março 20, 2016.

Por favor, “curtam” a nossa Página de Facebook e podem nos seguir para mais comentários sobre a Ciência sem Fronteiras, futuras entrevistas com os bolsistas e outras redações sobre o programa de bolsas.

You can also read about the conference in English: “Brazilian Scholars Unite: Brascon Sets a Stage for Sharing”.

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