“Idioma, Memória, e as Fronteiras da Saudade” | Sétimo de Nove Artigos

Na Bahia, onde estudei e trabalhei por um tempo, as pessoas sempre me perguntavam sobre a minha fascinação pela língua portuguesa. E eu sempre respondia o mesmo, “Quem não pode amar esta língua belíssima que tem o som do mar?” Verdade, respondiam, “mas por quê o Brasil então?” E também sempre respondia o mesmo, “foi a música, foi Clara Nunes e Gilberto Gil, foi o que eu ouvia na minha infância.” E era verdade: eu ouvia a música do Brasil bem novinho, na nossa casa de uma rua sem saída, de terra batida, de rio e ladeiras e mato.

Mas a explosão musical do Brasil chegou com toda sua força na minha casa porque meu pai era louco pela música do Brasil. Tínhamos vinis de todos os grandes compositores e intérpretes dos anos 60 e 70. Ele tocava esta música com tanta força—nós ficávamos sempre madrugando com Caetano, Maria Bethânia, Chico Buarque, João Gilberto, Tom Jobim—que até parecia um ato religioso. E não teve nada onde eu cresci (bom, tinha muitos bichos e cantadas de pássaros, sim, e às vezes quando chovia muito o barulho das gotas entrando na casa criava seu próprio batuque) então este som brilha mais ainda na consciência. Fomos nós, o cachorro, monte de gatos, o rio e mato, e a Bossa Nova, graças ao filme Orféu Negro, às grandes colaborações musicais entre artistas do jazz e artistas brasileiros e muito mais.

Mas, claro, com aquela idade eu não sabia nada desta historia. Eu era muito menino, mas cantava com as musicas, dançava, amava sem saber o que estava cantando e, sinceramente, sem saber que eu não sabia o que estavam cantando. Mas, dando crédito, também não entendia nada das músicas em Inglés, mas brincava igual com elas (e cantava).

De certa forma, eu também não tinha a idade nem a experiência (por ser do meio da mata) de saber que a música preferida do meu pai dia Sábado e Domingo nem era dos Estados Unidos. E achei que a música era “nossa” música porque sentia ela e porque não pensava em “outros,” em nações e em diferença. Eu vivia a música, entedia a emoção dela, brincava e dançava com ela, ficava melancólica com ela, com seu som; o universo de som do Brasil. Já brinquei sobre a língua dos cachorros mas é verdade que eles me ensinaram reconhecer tom e cadencia por osmose e talvez seja por isto que muitas memórias tem se formado através do som.

Lembro com absoluta clareza o momento em que dei conta que aquela música do meu pai não era ‘nossa’ nem ‘minha.’ “Pai, o quê é que estão dizendo aí,” perguntei um dia naquela fase de ter perguntas para tudo (acho que nunca parou). E, claro, fiz a pergunta em Inglês. “Jacob, eu não sei, isto aí é Gilberto Gil e ele está cantando em Português, não é daqui não.” Aquilo doeu. “Ele não é daqui pai? Da onde ele é então?” Meu pai sorriu muito como que ia mostrar algo bem fundo no coração e que, finalmente, eu fiz uma pergunta que teve resposta. Pegou o globo do mundo e com toda a alegria do mundo, fez ele rodar, eu maravilhado com aquilo. A música soava e ele apontou o dedo e de repente vi o pais do meu destino, uma década e meio para frente, soletreado “Brazil.” Território imenso, percebi na hora, e foi colorido em amarelo. Eu já gostei. “Aqui,” meu pai me disse, “ele é daqui.” Eu, meio chocado que esta música que eu amava não surgisse mais daquela curva no rio onde nasci senão de uma nação tão longe e grande, falei com orgulho, “então, a gente vai para lá um dia pai.”

Riu alto com a cabeça para trás, eu lembro, e houve algo na risada profunda que transmitiu muitas mensagens de som—os segredos das viagens da música, o atravessar de fronteiras de ritmos e línguas, o mistério da vida e do futuro, a possibilidade de um menino daquele interior ter esta esperança através da música, o mistério da fascinação que as crianças sentem por certas coisas, o reconhecer que aquele momento ia me marcar muito. “Eu sei que vamos,” me disse.

Não sei porque este senário pega com tanta força. Sei, agora em retrospectiva, que a palavra ‘saudade’ estava sendo cantada com alta frequência nas músicas de casa (até no tamborim!), que a emoção da melodia era saudosa, que os temas tocaram no universo da saudade. Mas acho que também é que a força da música criou um traço para mim. De alguma forma, segui aquela língua divina dos finais de semana para o Brasil. Acabei aprendendo e depois ensinando a língua na universidade. Acabei voltando no meu imaginário para a Bahia através das pesquisas. Acabei imerso na educação, no ensino, por primeira vez no Brasil, onde ensinei no Ilé Axé Oxumaré do lado da força da justiça e a encarnação da transformação. Acabei ensinando sobre o Brasil, e até entrando no mundo de bolsas de estudos para brasileiros. No congresso Faubai, até contei esta historia. Tudo isto através a música, meu Deus.

Então, voltando ao tema desta serie de artigos—já fugindo do Inglês novamente—acredito que a própria palavra saudade, através do ato de compartilhar as escrituras, me carregou ao passado, me lembrou que a palavra tem estado presente por muito tempo na minha consciência. Na verdade eu nem sei se é isto.

Acredito que a sensação, a emoção, a capacidade de viver o ausente, de sentir a tragédia e a beleza das memorias é uma parte do mistério humano. No Português, existe uma palavra que encapsula a vida de memoria, a procura dolorida, a tristeza, as viagens emotivas de nostalgia que é saudade. Talvez o ter uma palavra permite uma maneira de acessar e de falar da experiência com mais precisão, com menos palavras. Talvez esta presença da palavra—uma língua ou vocabulário de memoria—estrutura a própria experiência de lembrar, a emoção do ato de recordar-se. Mas acredito que a experiência com a memoria (a dor, a procura, a vontade de ter algo ou alguém de volta) esteja em todos nós. Na palavra ‘tradução’ em Árabe (tarjama), bem como planteia Dr. Mazen Naous, existe referencia a ‘memória’: talvez saudade seja um aspeto de memória que resiste a tradução porque é também um modelo ou modo da tradução, de tarjama.

Somos compostos de memorias fugitivas, momentos e pessoas do passado que chegam ao nosso presente e nos guiam ao futuro. A presença do ausente é um dos segredos da música também. Sim, as notas vibram, há frequências de jeito físico. Mas a emoção que a música cria, ela é invisível mas enormemente presente. Pode até mudar a vida de um menino que falava mais com bichos, matos e rios que com as pessoas!

Não tenho pesquisado o suficiente em todas as línguas da terra—as que são escritas, as que são de culturas orais—para ver se há uma palavra só que representa a constelação de emoção que ‘saudade’ carrega. São tantos idiomas. Mas há idiomas em estados de ‘extinção’, idiomas que por razões do tamanho da comunidade ou por causa da imposição de línguas, não se passam de uma geração para outra. O idioma em si, então, todas as suas palavras adquire algo parecido à procura da saudade.

Saudade também parece ser uma experiência pessoal, vivido de jeito pessoal e entendido pelas diferentes presenças de memórias que temos vivido. Saudade implica modos de viver na memoria e de viver a memoria, modos que variam segundo a pessoa, segunda a cidade, a geografia, a região. Talvez seja por isto que tantas vezes eu ouço que, além do Português seja falado em tantos países do mundo, ‘saudade só existe no Brasil, só se sente no Brasil.’ Assim foi a minha apresentação à palavra nos cursos. Talvez porque saudade varia tanto e se define de maneiras tão diferentes, dificulte mais ainda a tradução dela. Como se traduz uma palavra que representa realidades tão diversas, tantas memorias coletivas diferentes, uma pluralidade de significado dentro do Brasil ou qualquer área da Lusofonia?

Uma possível resposta é pensar além das palavras e além das línguas faladas, ao mundo de som. No final, não posso pensar num melhor “modelo” e paralelismo a saudade que o grito do Cante Jondo, a música dos Roma, os Ciganos, da Andalusia:

O Cante Jondo, Flamenco, sim impactou a musica do Brasil. Atravessou o mar Atlântico. E neste grito de memoria, de tragédias e genocídio, há também a beleza da expressão, a dignidade de enfrentar as emoções e as lembranças, a força de manter a tradição.

***

Este artigo foi escrito por Jacob Dyer Spiegel em Português. É o 7to em uma serie de 9 artigos sobre saudade (mas o primeiro em Português). Se você gostou, por favor, faz clique na Página de Facebook. Pode-se ver também o site de SiroccoBlue.com onde explico a área de trabalho profissional na área de tradução e a redação de dois documentos cruciais para entrar em universidades nos EUA e para as aplicações para bolsas de estudos. Há muitos outros artigos sobre linguística, tradução e estudos culturais também.

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